Noite de espantar demônios


Gabriel Moura

- Merda - ele diz, apeando com agilidade. A lua cheia está coberta por nuvens, e a temperatura é amena. Faz tempo bom em Campo do Guará há semanas.

Ele deixa o cavalo para trás, um animal obediente e de raça pura, e caminha devagar até a residência iluminada a cinquenta metros dali. Durante o percurso tamborila os dedos no coldre da arma. Para a uma distância segura e observa a construção de dois andares, mas não vê qualquer movimento nas janelas. Não há cachorros nem sentinelas. O único som vem dos grilos.

- Merda - fala de novo, desta vez mais incisivo, e cospe.

Chega na varanda. Pisa no primeiro degrau, sente o ranger da tábua. Sobe a escada e para embaixo da soleira. Respira fundo, ajeita o chapéu na cabeça, o lenço no pescoço. As mãos suam e tremem. Ele faz o sinal da cruz e gira a maçaneta.

- Bem-vindo, Josué - diz um homem acomodado em uma poltrona, de frente para a porta. O rosto escondido pelas sombras, ele tem um livro aberto no colo, um tomo espesso. Na mesinha ao lado do assento um lampião queima. Não há qualquer outra mobília na sala.

- Estou aqui - fala Josué, tentando controlar o nervosismo.

- Gosto de homens com palavra - diz o sujeito. Fecha o livro e o coloca na mesa, depois cruza as pernas. Usa roupas fora do comum para a região da fronteira.

- O nosso acordo… - começa Josué.

- O nosso acordo é irrevogável e inadiável.

Josué coloca a mão no revólver.

- Armas assim não são capazes de me atingir - diz o interlocutor. Parece relaxado na poltrona, como se ignorasse a ameaça.

A casa é afastada, pensa Josué, ninguém vai ouvir os tiros. O sujeito ri. Josué saca o revólver e dispara três vezes. Nenhum projétil acerta o alvo.

- É muita ignorância pensar que vai fugir assim, me baleando. Eu sou muito mais antigo do que armas de fogo.

- Eu sei o teu nome - grita Josué, - Se eu souber o teu nome, tu não pode me fazer mal.

- Isso é história de crianças. Acha que dizer meu nome vai me afastar?

- Mammon - diz Josué. - Mammon, o senhor da ganância.

Nada acontece. O sujeito, agora sorridente, apaga o lampião. Josué dá meia-volta e corre o mais rápido que consegue na direção do cavalo. Grita palavras que sabe em latim, trechos de orações, os nomes de Deus. Corre tanto que chega ao animal em poucos segundos. Olha para trás e respira aliviado: não foi seguido. Ele ri, tira o chapéu e seca a testa. Aguarda. A montaria, porém, está assustada, como se não reconhecesse o dono. Relincha, pula, puxa forte os arreios, então vira o corpo e ameaça um coice. Josué o liberta, e o garanhão dispara campo afora.

- Maldito. Volta aqui, animal dos infernos.

- Eu quero somente você - ele ouve. - O cavalo não tem débito comigo.

É como se um leão-baio estivesse espreitando no escuro, pronto para avançar. Um arrepio atravessa a espinha e sobe até os cabelos da nuca. Subitamente o mundo vira de cabeça para baixo e Josué está no chão. É puxado pelos pés, arrastado como um saco vazio. Tenta se agarrar no capim, socar as mãos que o seguram, chutar e gritar.

- Ninguém vai te ouvir.

Josué desiste, fecha os olhos e reza. Depois, sente uma pancada na moleira.

Abre os olhos. Está dependurado pelos tornozelos, que doem, esmagados por elos de corrente. O sangue está todo na cabeça, que lateja, muito pior que ressaca de pinga. O luar entra por algumas frestas. Olha ao redor, parece que está em um galpão. O cheiro é de bosta de cavalo, feno e mijo de zorrilho. Ele tenta alcançar o solo, estica as pontas dos dedos, porém as mãos não chegam. Inclina o corpo, para lá e para cá, pegando impulso, vendo se consegue se soltar, mas o balançar faz doer ainda mais os pés.

- Maldito - ele grita, ao ver que está bem preso.

Ninguém responde.

Josué tira o revólver da cintura. Contrai o abdome, ergue o tronco e atira contra a corrente. Erra todos os disparos, e o último acerta no próprio pé. Grita, amaldiçoa, se encolhe de dor. Fica ainda mais bravo, pega as últimas balas da cartucheira, e derruba algumas no chão enquanto alimenta o tambor.

- Pode ficar quieto? - alguém diz.

- Quem fala? - ele pergunta assustado, com a voz esganiçada. Quase chora. Acertei o dedão do pé. O sangue quente desce por dentro da bombacha.

- Apenas fique quieto, por favor. Não há como escapar.

A voz é rouca e profunda. Deve ser um homem grande e forte.

- Quem é você? - indaga Josué.

- Ninguém.

- Não conheço nenhum Ninguém.

Ele tenta enxergar o outro homem, mas não consegue distingui-lo na penumbra.

- Eu não sou muito popular por estas bandas. Mas me conte sobre você. Por que está aqui?

Josué tenta identificar de onde vem o som. Responde:

- Fiz um acordo, mas ele não foi cumprido como o combinado.


Josué termina de preparar o revólver, engatilhando a arma, e diz:

- Vou sair daqui. O pacto não foi cumprido, então não tenho que pagar.

Dispara três vezes contra a corrente. Resta uma bala. Tenta forçar os elos com um impulso, dois.

- Esqueça se acha que vai enganar um demônio usando métodos tradicionais. Esta corrente você nunca romperá. Não com arma comum.

- Então como podemos sair daqui?

- Mancando – diz o desconhecido, dando uma risada digna de um leão.

Josué quer chorar de dor.

- Se eu dissesse que há uma forma, Josué, de escapar...

- Eu não disse o meu nome. Como você sabe o meu nome?

- Você deve ter dito em algum momento. Mas não interessa, o importante é a proposta que vou fazer. Quer ouvi-la?

- Tanto faz.

- Eu proponho que a sua dívida seja transferida.

- Como se endossasse?

- Isso, como se um demônio transferisse o que você deve para outro demônio. Um demônio mais poderoso que Mammon, que não pode ser contestado.

Josué está ofegante, tonto, cansado. Sangue desce pelo seu rosto até os cabelos. O pé esquerdo lateja e parece prestes a explodir. Ele não consegue acreditar no que está acontecendo, é como um sonho, ou um pesadelo.

- Eu seria libertado?

- Sim. Mas quando chegasse a hora teria de entregar a sua alma, e sem chance de alterar o contrato.

- Quanto tempo eu poderia viver?

- A vida toda, até a morte. E quando morrer, a tua alma será de Azazel.

- E eu poderia me vingar de Mammon?

- Sim. Esta é uma das condições, você deve acabar com ele esta noite.

- Então me liberte destas correntes – pede Josué, e os elos se desfazem como que por mágica. Ele cai no chão, desajeitado.

- Vá – diz a voz, - e não desperdice a única bala que há no revólver.

Josué levanta, mal apoiando o peso nos pés e pernas dormentes. Sacode a cabeça, que respinga sangue. Perde um pouco o equilíbrio e senta. Confere as botas, e há de fato um buraco no pé esquerdo.

- Apresse-se, antes que ele retorne.

Josué levanta com dificuldade, respira fundo e manca para fora da construção. Abre a porta de madeira do galpão e se vê livre. A lua banha o campo, e lá, a muitos e muitos metros de distância, ele distingue a sombra da casa.

- Como eu devo matar um demônio?

- Com a bala – dizem atrás dele.

Josué olha para o revólver.

- Estamos de acordo? - indaga a voz.

Josué vira. Então vê a sombra de uma criatura enorme, humanoide, a cabeça animalesca. Chifres se projetam para o alto.

- Meu nome é Azazel, e agora você me pertence, Josué.

A pele da mão queima, e Josué vê surgir ali um símbolo de bode, como se feito com ferro em brasa. Josué beija o ferimento.

- Quando o tempo chegar, buscarei a sua alma.

Então o ser demoníaco desaparece, e fica no ar um cheiro fétido.

Olha ao redor, ouve os grilos e sente no rosto uma brisa quente. A lua está plena. Aquela sensação de se ver cercado por um predador já não existe. Acaricia o revólver no coldre, ajeita o lenço no pescoço. O chapéu faz falta. Caminha devagar, saltando, e toma distância do galpão. Observa a casa, lá adiante, a uns cinquenta metros. Pensa enxergar uma luz fraca em uma das janelas, e talvez uma silhueta.

- Merda – ele diz e cospe, e depois sai mancando na direção oposta à procura do cavalo.

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Gabriel Moura

E-mail: gabrielmouraescritor@gmail.com

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